Crise do COVID-19 e a Pandemia de Fraudes

Disponibilizado em 29/04/2020

 

Organizações criminosas são notoriamente flexíveis, criativas e inovadoras. Elas se adaptam e respondem de maneira ágil aos diferentes cenários. Com a crise do coronavírus não foi diferente. Criminosos em todo o mundo agiram rapidamente para adaptar esquemas conhecidos de fraude, explorando a ansiedade e o medo de pessoas, empresas e órgãos governamentais.

 

De fato, como apontado pela EUROPOL, as medidas tomadas pelos governos para responder à pandemia acabaram criando um terreno fértil para criminosos e extremistas violentos. Entre estas mudanças, podemos apontar: a alta demanda por equipamentos de proteção e remédios; a diminuição da mobilidade das pessoas; o aumento da procura por soluções digitais; limitações da vida pública que acabam por tornar algumas atividades criminosas menos aparente; a diminuição da oferta de certos bens ilícitos e mesmo o aumento da ansiedade e medo das pessoas o que as tornam mais vulneráveis a serem exploradas.

 

Assim, ações de cooperação policial internacional estão rastreando e até mesmo bloqueando um grande número de crimes envolvendo a fraude e a lavagem de dinheiro ligados à crise do COVID-19.  Na maioria dos casos, os golpes são versões adaptadas de esquemas conhecidos, tais como fraude telefônica, por e-mail ou "venda/fornecimento" de produtos inexistentes. 

 

Outra modalidade frequentemente identificada nesta crise é a distribuição de itens falsificados ou abaixo do padrão de qualidade. No caso da pandemia, os criminosos estão explorando - tanto online quanto off-line - a venda de produtos sanitários e de saúde, bem como de equipamentos de proteção individual e até mesmo de kits de teste.

 

Os órgãos de controle internacionais preveem o aumento do número de fraudes em todo o mundo além do surgimento de novos esquemas criminosos. Espera-se também um grande aumento do número de vítimas. Confira alguns dos golpes já identificados pelos órgãos de cooperação internacionais.

 

Compra de 15 milhões de euros em máscaras

Em meados de março, as autoridades sanitárias alemãs contrataram duas empresas em Zurique e Hamburgo para adquirir 15 milhões de euros em máscaras faciais. Com a escassez global de suprimentos médicos, os compradores tiveram dificuldades em encontrar uma empresa capaz de fornecer o grande volume necessário. Contudo, foi identificado uma empresa na Espanha com capacidade para suprir a demanda. O site dessa empresa, no entanto, era forjado e atrás dos endereços de e-mail estavam criminosos.

O esquema da fraude foi sofisticado. A empresa espanhola afirmou ter apenas uma parte dos produtos para a pronta entrega. Eles encaminharam os compradores alemães para um revendedor "confiável" na Irlanda que, por sua vez, também afirmou não dispor das máscaras. Este intermediário irlandês colocou os compradores em contato com uma nova empresa na Holanda.

O reconhecimento das limitações de oferta por parte das empresas bem como a indicação de uma série de possíveis fornecedores acabou criando uma rede de validação de clientes que conferiu credibilidade ao negócio. Desta forma, foi realizado parte do pagamento para garantir o envio da mercadoria que nunca chegou à Alemanha. A empresa Holandesa na ponta da rede de validação existe e é legítima. No entanto, a companhia teve seu site clonado e controlado pelos criminosos nesse esquema de fraude. A Rede de Validação de Clientes (Chain of Referrals) foi usada para justamente trazer a falsa segurança na negociação. 

A Europol foi acionada, mobilizando organizações policiais e de segurança de diversos países. O Serviço Holandês de Informação e Investigação Fiscal conseguiu localizar o valor pago pela empresa alemã. Parte do dinheiro já havia sido enviada para o Reino Unido, com destino a uma conta na Nigéria. Até o momento duas pessoas foram presas.

 

Operação Pangea

Em outro caso que assusta pela sofisticação e escala, a INTERPOL coordenou a Operação Pangea XIII entre os dias 3 e 10 de março de 2020. Esta foi uma ação coletiva para barrar a venda ilícita de medicamentos e produtos médicos online. A operação envolveu 90 países e resultou na apreensão de máscaras falsificadas, desinfetantes para as mãos com baixo padrão de qualidade e medicamentos antivirais não autorizados.

Foram 121 detenções realizadas em todo o mundo e a apreensão de produtos farmacêuticos potencialmente perigosos no valor de mais de 14 milhões de dólares. Os policiais identificaram mais de 2 mil links para produtos falsificados em sites, redes social, mercados on-line e anúncios on-line, todos relacionados a produtos para proteger ou combater contra o novo coronavírus.

Em comparação à 2018, ocorreu um aumento de cerca de 18% nas apreensões de medicamentos antivirais não autorizados. Foi também relatado um aumento de mais de 100% nas apreensões de cloroquina (medicamento antimalárico conectado ao tratamento da COVID-19) não autorizada.

Durante a ação, as autoridades dos países participantes inspecionaram mais de 300 mil pacotes, dos quais mais de 48 mil foram apreendidos pelas autoridades aduaneiras e reguladoras. No total, foram apreendidos cerca de 4,4 milhões de unidades de produtos farmacêuticos ilícitos em todo o mundo para os mais diversos fins.

Portanto, é preciso estar atento e em constante vigilância. Estes casos demonstram não só a alta criatividade e sofisticação das organizações criminosas, mas também a importância da atuação das instituições privadas na detecção e prevenção destas fraudes e da consequente lavagem de dinheiro. Mesmo após o término das medidas de proteção sanitária, é provável que os criminosos se adaptem novamente a fim de explorar a situação pós-pandemia.

 

Jorge M. Lasmar, PhD

Jorge M. Lasmar

Doutor em Relações Internacionais pela London School of Economics and Political Science (LSE), Coordenador Geral de Pós-graduação das Faculdades Milton Campos, Professor Permanente do Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais da PUC Minas e Membro da Comissão de Certificação dos Profissionais de Prevenção à Lavagem de Dinheiro e Financiamento do Terrorismo, IPLD.