Tipologia: Os 3 tipos de fraudes médicas relacionadas a Covid-19

Disponibilizado em 25/06/2020

As atividades ilícitas envolvendo a área médica são semelhantes às observadas antes da epidemia do novo coronavírus. Os criminosos, no entanto, modificaram os esquemas fraudulentos para tirar proveito e lucrar com a pandemia, vitimando pessoas e empresas. Recentemente, a Rede de Execução de Crimes Financeiros (FinCEN) emitiu um comunicado para alertar as instituições financeiras sobre o crescimento dos golpes relacionados à área médica.

 

Entidades que atuam no combate e na prevenção aos crimes de lavagem de dinheiro em todo o mundo classificaram os golpes em 3 categorias.

 

Curas, testes, vacinas e serviços fraudulentos:

Nesta modalidade de fraude, serviços ou itens médicos são geralmente oferecidos ao grande público. São, por exemplo, as ofertas de vacinas ou de testes fraudulentos para a COVID-19. Na maioria das vezes, os golpistas utilizam empresas de suprimentos médicos recém-abertas, que não são registradas ou licenciadas.

Um exemplo é o caso de criminosos que fingiram ser médicos para pedir dinheiro aos parentes de vítimas para a realização de exames contra a COVID-19. Os fraudadores foram ousados e chegaram a ligar no quarto do hospital onde o paciente estava internado. A vítima foi abordada com a informação de que seu parente necessitaria de exames extras, só realizados em outro local. Para evitar a remoção do paciente, a vítima deveria pagar R$ 7.400,00 para as despesas de transporte do equipamento.
( aqui )

Nos Estados Unidos, um morador do estado da Geórgia foi preso por vender um pesticida não registrado como um produto para a proteção contra o vírus. ( aqui ). Já a polícia de Los Angeles interceptou no aeroporto kits falsos de detecção da doença, provenientes do Reino Unido, sob o falso rótulo de água purificada. ( aqui )


Golpes de não entrega

A pandemia da COVID-19 criou uma demanda súbita por produtos médicos. O aumento repentino facilitou a aplicação da fraude em consumidores e empresas por meio da não entrega de mercadorias. Nesse golpe, um cliente paga a empresa falsa por mercadorias que nunca receberá. As vítimas podem ser empresas, hospitais, governos e consumidores inocentes. Muitas vezes, as transações fraudulentas ocorrem por meio de sites, empresas de fachada ou por transações com moeda virtual.

Recentemente, a Polícia Civil da Bahia deflagrou a operação Ragnarok para investigar uma organização criminosa que deixou de entregar respiradores comprados pelo Consórcio Nordeste, rede formada pelos governos dos nove estados da região para o combate da pandemia. Os respiradores foram comprados de uma empresa, contratada para intermediar a compra dos equipamentos fabricados na China. Os produtos não foram entregues. ( aqui )

As autoridades alemãs contrataram os serviços de uma empresa falsa para a compra de 15 milhões de euros em máscaras faciais. Foi criada uma rede de validação, para garantir a credibilidade da empresa falsa.
( aqui ). O Serviço Secreto americano evitou uma fraude na compra de máscaras de proteção N95, uma negociação envolvendo o valor de U$ 317 milhões. O alerta foi dado pela instituição financeira, que desconfiou de informações do cliente. ( aqui )


Manipulação de preços e acumulação de itens médicos

Os fraudadores podem também acumular produtos para vendê-los a um preço mais alto do que o praticado anteriormente no mercado. Os preços inflacionados são de produtos como máscaras, luvas descartáveis, álcool, desinfetantes, entre outros. Há ainda o golpe de empresas que vendem a preços superfaturados novos equipamentos médicos essenciais para o tratamento dos pacientes com o novo coronavírus.

No Brasil, há vários casos referente ao aumento do valor de equipamentos médicos, especialmente respiradores. A Polícia Civil, Militar e o Ministério Público estão realizando investigações em alguns estados, como Rio de Janeiro e Pará, sobre fraude na compra de respiradores. ( aqui ) e ( aqui )

Nos Estados Unidos, um homem foi preso por acumular e revender para profissionais da saúde máscaras cirúrgicas, aventais médicos e outros suprimentos com uma margem de lucro de 700% sobre o valor original. ( aqui )


Maneiras de prevenir o golpe

Este golpes envolvendo a área médica são considerados indicativos de crimes financeiros. No entanto, antes de determinar se uma atividade é suspeita, as instituições financeiras devem considerar as informações contextuais adicionais. A análise pode ser feita a partir da Abordagem Baseada em Risco das instituições financeiras e, se apropriado, com investigações adicionais.

É importante ficar alerta a alguns sinais de golpes:

- a imagem de marca do produto é ligeiramente diferente das imagens do produto legítimo, o que pode indicar falsificação;
- o vendedor anuncia produtos relacionados ao novo coronavírus com descontos muito altos ou preços inflacionados;
- o vendedor solicita o pagamento por meio de transações incomuns, diferente do padrão do setor, como por exemplo transferência eletrônica ou moeda virtual;
- o vendedor não tem um histórico corporativo, por exemplo: a empresa foi criada há poucos meses;
- há discrepância entre o endereço físico indicado pelo vendedor e os dados incluídos em registros públicos;
- o vendedor reluta ou se nega a fornecer ao cliente ou à instituição financeira documentações para apoiar a transação que está realizando,
- a instituição financeira tem dificuldade em entender a verdadeira natureza do negócio da empresa e de suas transações;
- o vendedor não fornece números de rastreamento de remessa ao cliente ou comprovante de remessa para uma instituição financeira, para que possam ser processadas as transações financeiras relacionadas;
- o vendedor reclama vários atrasos de última hora, como por exemplo: que o equipamento foi apreendido no porto ou pelas autoridades, que a alfândega não liberou a remessa ou que a remessa está atrasada em uma embarcação.
- o vendedor não pode explicar a fonte dos produtos ou como adquiriu suprimentos;
- governos nacionais ou estrangeiros identificaram o vendedor como associado a atividades fraudulentas e criminosas;
- conta recém-aberta com volume maior de transação eletrônica, não mencionado durante o processo de abertura da conta;
- uma pessoa passa a usar suas contas pessoais para transações, após janeiro de 2020, e cria uma empresa de suprimentos médicos para a venda de produtos médicos ou produtos de limpeza para a venda online;
- uma pessoa está recebendo ou enviando transferências eletrônicas de fundos (EFT) para / de uma empresa recém-criada que não tem presença física ou na internet conhecidas;
- uma empresa não relacionadas à medicina passa a fazer transações de mercadorias relacionadas a COVID-19;

 

Devida diligência do cliente

De acordo com o Grupo de ação Financeira (GAFI), as instituições financeiras devem adotar processos e controles para que o início e manutenção de clientes sejam feitas considerando, minimamente, as seguintes medidas:

- identificar o cliente e verificar sua identidade por meio de documentos, informações ou dados confiáveis e de fontes independentes.

- identificar o beneficiário e adotar medidas razoáveis para verificar a identidade de tal beneficiário, de forma que a instituição financeira obtenha conhecimento satisfatório sobre quem é o beneficiário. Para pessoas jurídicas e outras estruturas jurídicas, as instituições financeiras deveriam também compreender a propriedade e a estrutura de controle do cliente.

-Compreender e, quando apropriado, obter informações a respeito do propósito e da natureza pretendidos da relação de negócios.

- Conduzir uma devida diligência contínua na relação de negócios e uma análise minuciosa das transações conduzidas durante a relação para garantir que tais transações sejam consistentes com o conhecimento da instituição sobre o cliente, seus negócios e perfil de risco, incluindo, quando necessário, a origem dos recursos.

 

 

 

Autor

Manuel Bermejo Fletes

Formado em Administração de Empresas, com MBA em Gestão Estratégica de Negócios e Especialização em Compliance como ferramenta de Gestão pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Profissional com mais de oito anos de experiência na área financeira, coordenando equipes e projetos em instituições nacionais e internacionais. Hoje é Coordenador da área de Monitoramento de Operações de PLD/FT.